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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Fragata Eleitoral 2012

 Por enquanto o rio corre em calmaria. Por enquanto. Com o término do carnaval, o agito na água é certo. E a turbulência não será pouca. Os momentos de inquietação nas articulações e definições dos candidatos para as eleições municipais deste ano, já demonstram o rascunho de um cenário de guerra.

O espectro ideológico é invisível, irrelevante, o que não é novidade. No final das eleições só importará ancorar a embarcação com segurança no maior ‘Porto Seguro político’ do Brasil: a cidade de São Paulo.

Nesta verdadeira fragata em busca do poder, surge um personagem que nada tem de coadjuvante: Gilberto Kassab (PSD-SP). O atual prefeito da cidade de São Paulo, destacado por suas habilidades na articulação política, fez movimentos ambíguos, e provocou muita discussão internamente no PT ao conversar com Lula, sobre uma aliança com o pré-candidato petista Fernando Haddad. Na realidade, o aceno de Kassab ao PT foi uma forma brilhante de pressionar José Serra à concorrer no pleito deste ano -o que até agora não surtiu efeito imediato, porém, Serra já demonstrou a  possibilidade de voltar atrás – já falarei mais do tucano. No final das contas, o PSD de Kassab deve apoiar mesmo Serra, (lançando o vice na chapa) mas a conversa entre PSD e PT para formar uma aliança nas cidades do ABC paulista permanece ativa.

Em São Paulo, o PT deixará de fora Marta Suplicy da disputa para apostar todas suas fichas no ex- Ministro da Educação Fernando Haddad, escolhido à dedo por Lula. As chances do candidato neófito dependerão muito do apoio do ex-Presidente, de partidos de menor expressão, e do discurso e carisma de Haddad para superar uma barreira. O grande desafio do partido será bater o índice histórico de 35% de votos no primeiro turno, que o PT não consegue ‘bater’ na capital paulista. No caminho da campanha, o teto de vidro de Fernando Haddad será apedrejado pelas falhas no Enem, pelo polêmico Kit anti-homofobia, e pela falta de experiência em administrar uma cidade. À seu favor, o candidato promete esticar a bandeira da educação, recordando principalmente os feitos do   Pro Uni.

Já no ninho tucano, as bicadas tornam-se cada vez mais sangrentas. O partido, em crise, desde a derrota nas eleições de 2010, decidiu realizar prévias entre José Aníbal, Ricardo Trípoli, Bruno Covas e Andréa Matarazzo. Marcada para o início de março, e, conduzida pelo Governador Geraldo Alckmin, o cancelamento das prévias, dado como certo, se José Serra afirmar oficialmente que irá concorrer, ( e ele irá)  só desgastarão mais o partido. Caso isso ocorra, Serra entrará na disputa consertando rachaduras. O ideal seria Serra participar das prévias, para evitar mais confusão. O clima no ninho tucano anda com ânimos exaltados, troca de ofensas, e o processo de desarticulação é mais notável do que o de articulação. Serra, por sua vez, assiste a tudo de camarote, como se disputasse uma partida de xadrex. Observando cada movimento, e decidindo lentamente cada ação, Serra conversa com PPS, PP, DEM, e PSB para formar uma aliança, e amadurece a idéia de abandonar o sonho da Presidência da República – seu maior projeto pessoal. Ou Serra terá a cara de pau de dizer na campanha  que abandonará o cargo de Prefeito daqui 2 anos para se candidatar ao Planalto? Seria no mínimo arriscado para um político que enfrenta rejeição de mais de 30% na cidade. Suicídio político na certa. No caminho da possível, e muito provável campanha, o teto de vidro de Serra ainda terá que resistir aos ataques desferidos pelos adversários através do livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, e pelo fato de ter abandonado a Prefeitura de São Paulo para concorrer a Presidência. É uma arma forte do adversário. Mas o PT terá coragem de lembrar desse episódio, relembrando ao eleitorado que no lugar de Serra entrou Kassab? Vamos aguardar.

Por fim, o candidato que deve atrapalhar, redefinir, ou decidir,  a guerra entre PT e PSDB, é Gabriel Chalita, do PMDB. Chalita é advogado, professor, autor de mais de 30 livros, alguns best sellers, sendo que o primeiro ele lançou aos 12 anos de idade. Ex-alckmista, secretário da educação, Gabriel Chalita surgirá envolto na bandeira da educação, com um discurso manso, calmo, recheado de religiosidade e simpatia. O pré candidato encontrará seu espaço com o eleitorado que está cansado do PSDB, e do PT, e provavelmente terá papel de coadjuvante na disputa, mas, certamente, o papel de coadjuvante será decisivo no segundo turno das eleições. PT e PSBD farão de tudo para obter apoio de Chalita. É esperar, acompanhar, e analisar. As armas e os atores políticos posicionam-se lentamente para o combate. Vem aí mais jogo sujo, patifaria, falácias, ilusões, simpatia. Prepare-se eleitor para nadar à braçadas, desviando de mais uma guerra política sem escrúpulos. Respire fundo. Seu fôlego será necessário.    

 Imagem retirada deste link 
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Entre terra, entulhos e sonhos

O rapper Sabotage, criado nos becos do Brooklin se destacou no hip hop da virada do século. Ele foi assassinado em 2003. Desapareceu antes do bairro em que cresceu também desaparesse entre terra, entulhos e sonhos. A favela do Jardim Edite, na esquina da avenida Jornalista Roberto Marinho com a Engenheiro Luiz Carlos Berrini, a poucos metros da ponte Estaiada, será urbanizada com a construção de prédios populares. Já falei do assunto em duas postagens, inclusive uma ilustra o “destaque” deste blog. A prefeitura também tem a intenção de remover outras favelas na antiga e sempre Espraiada, como Piolho e Canão. Assim a prefeitura retira os moradores de favelas da regiões consideradas nobres. O exemplo do Jardim Edite é claro e não deixa dúvidas. De acordo com a reportagem do jornal Folha de São Paulo, Cotidiano (18/5), serão 278 familías beneficiadas, dentre as 854 que viviam na antiga favela. Os apartamentos terão 48 m2 -o padrão da Cohab é 42 m2. Um dos blocos, do total de sete, terá até elevador. Cada apartamento deve custar de R$ 65 mil a R$ 70 mil, já incluída a infraestrutura do local. Os novos moradores devem pagar por volta de R$ 300 mensais, fora luz e condomínio. Enquanto isso, as pessoas que aguardam a construção dos prédios, recebem um bolsa-aluguel de R$ 500. A licitação para a obra deve ser lançada em dois meses e o conjunto deve ser concluído em meados de 2010. O grande jogo de interesses que envolve a região, coloca o lado mais fraco em desvantagem. Acredito que muitas pessoas não terão condições financeiras de voltar a residir no mesmo local. Dentro de alguns anos, não duvido nada que os apartamentos sirvam de moradia para empregados dos prédios envidraçados no entorno. O Brooklin como Sabotage conheceu já deixa saudades.




Vídeo feito e editado por Fabrício Amorim
Música de Sabotage - No Brooklin


Fontes:
Folha de são Paulo
UOL Follow Fabricio_blog on Twitter

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Transparência de alto custo

Com o objetivo de discutir medidas para colocar um pano frio na crise ética que se abateu sobre o Legislativo e para vender a ideia de um "pacote moralizador", o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), se reuniu com líderes partidários e alguns integrantes da Mesa Diretora da Casa. A turma da limpeza da imagem
resolveu anunciar um aumento na trasnparência dos gastos dos deputados.

A meta é colocar na internet todas as despesas com passagens aéreas, correio e telefone, como já acontece atualmente com a verba indenizatória. Também será anunciada uma reforma administrativa, para tentar reduzir os gastos da Casa, e houve consenso para restringir a emissão de passagens aéreas. A tendência é que os bilhetes só possam ser utilizados pelo deputado e para viagens a trabalho.

Dessa maneira a farra termina. Se um deputado souber que a passagem aérea para Miami de sua namorada estará visível na internet, certamente pensará duas vezes antes de colocar na conta no Congresso. Com tudo escancarado, o senador habituado a fretar jatinhos também ficará constrangido ao mandar a nota fiscal para ser paga com dinheiro público. Empregadas domésticas recebendo pela Câmara passarão a ser raras.



Peço licença a Duke para ilustrar esta postagem com a excelente charge.

Agora é aguardar e acessar, mas a transparência pode vir a um custo, porque há a proposta de aumentar salários em troca da divulgação dos dados. Uma das propostas discutidas autoriza o reajuste como contrapartida à maior transparência, mas esse assunto só será resolvido com o anúncio dos resultados da reforma administrativa, previsto para a próxima semana.

Aí o leitor desta postagem pode puxar na memória que todas as vezes que os deputados falavam em equiparar seus salários aos dos ministros do STF, a ideia era reduzir ou até eliminar a verba indenizatória. Também já houve uma proposta de incorporação de parte da verba ao salário, entretanto, dessa vez, alguns líderes defendem aumento de salário sem redução da verba.

Os deputados recebem pouco mais de R$16 mil. Com o aumento, sem a redução da verba, façam as contas: 24 mil reais de (salário) + 12 mil (verba indenizatória). Um político bem remunerado torna-se incorruptível? A mídia não tem a intenção de fechar as portas do Congresso e muito menos desprestigiar a imagem dos senhores perante a sociedade. O chiclete que grudou nos sapatos somente visa identificar todos os passos dos nobres congressistas. A imprensa faz seu papel e assim o eleitor pode se orientar melhor para fazer sua escolha no ano que vem. Follow Fabricio_blog on Twitter

sexta-feira, 27 de março de 2009

Vizinhos de altos interesses

O novo cartão-postal de São Paulo esconde ao seu lado uma história de resistência. A ponte estaiada Jornalista Octávio Frias de Oliveira, localizada em uma região muito valorizada na cidade, tem como vizinha a favela do Jardim Edite. O que se vê em volta são inúmeras contruções, (eu contei quatro em duas quadras), além de milionárias estruturas arquitetônicas, como a Rede Globo, hotéis de luxo, e outras grandes empresas. Em meio a região emergente, a sub-prefeitura de Pinheiros começou a desocupar a ponta da favela, na esquina da Rua Araçaiba com a Avenida Jornalista Roberto Marinho. O terreno ocupado pela favela Jardim Edite faz parte da Operação Urbana Água Espraiada, e está em área de Zona Especial de Interesse Social (ZEIS 1), o que obriga a Prefeitura a criar projetos de habitação no local ou na região para acomodar os moradores. Não sei se essa é a intenção do poder público.



O Plano Diretor Estratégico de São Paulo de 2002, determinou a região em uma ZEIS. Nesses locais, o governo é responsável por organizar a demanda local junto com os moradores, mobilizar um financiamento e promover melhorias urbanísticas na favela. O Plano Diretor garante que a finalidade do terreno deve ser de 40% para habitação, 40% para o comércio e 20% de uso livre. As famílias só poderiam ser removidas para outro local se permanecerem no perímetro do bairro. Durante o debate no segundo turno entre Kassab e Marta, o atual prefeito afirmou que seriam construídos prédios no lugar da favela para acolher os moradores.

Passei a acreditar na promessa de Kassab, e observei no começo desta semana o início da remoção dos moradores. Com o trator passando por cima dos barracos, as pessoas assistiam do outro lado da rua a demolição de seus sonhos. Alguns começam a olhar com esperança a construção de moradias decentes, mas a permanência na área está em debate com a prospota enviada pela Prefeitura á Câmara dos Vereadores que muda uma regra importante das Operações urbanas.



As mudanças contidas na revisão do Plano Diretor, dá a Prefeitura o direito de tirar moradores de qualquer terreno desapropriado e instala-los em conjuntos habitacionais a serem erguidos na periferia. Já ficou clara que a intenção de Kassab era mandar para bem longe as famílias da favela jardim Edite. Em 2007, a Prefeitura ofertou duas propostas: a primeira "presenteia" a família com cheques-despejo cujos valores variavam de R$ 5 mil a R$ 8 mil. A segunda ofereceu moradia em outros locais, como o conjunto habitacional da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), no Campo Limpo (extremo da Zona Sul), e no conjunto José Bonifácio (extremo da Zona Leste), da Companhia Metropolitana de Habitação(Cohab)



De acordo com a Associação de Moradores do Jardim Edite, cerca de 396 famílias saíram da favela após as ofertas da prefeitura. A maior parte aceitou os cheque-despejos; aproximadamente 77 famílias optaram pelos conjuntos habitacionais. Hoje, 420 continuam no local, com apoio da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

A comunidade do Jardim Edite começou a se instalar no local na década de 70 e metade das famílias residem na área há mais de 10 anos. Antes de qualquer discussão sobre a área, tem de haver o respeito as famílias. A maioria da população da favela é gente de bem, trabalhadora, e que se mata de sol-a-sol para garantir seu sustento. É necessário somente um pouco de bom-senso para barrar a revisão no Plano Diretor, que além de prejudicar os moradores de favelas, permite as construtoras e investidores erguerem prédios de altura superior aos limites de determinados bairros.


                        Moradores de um barraco observam a destruição ao lado de seus móveis

Claro que a Prefeitura não ia ficar de bobeira. Ela receberá dinheiro das empresas para financiar obras públicas, além das famosas doações ocultas em anos eleitorais. É um grande jogo de interesses que coloca mais uma vez o lado mais fraco em desvantagem. Estou acompanhando o que vai acontecer. Um dia volto a falar novamente deste assunto que tira o sono de muita gente.


Fotos de Fabrício Amorim

Fontes:
Estado de São Paulo
G1
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